
Não sei se já alguma vez tu, caro leitor, fizeste tal coisa. Tal coisa parece completamente e estranhamente inutil e descoordenada.. Se assim não fosse, eu não a faria.
A imagem que temos, sociedade hipocrita, das salas de cinema não é de todo a sua verdadeira essência, o seu verdadeiro âmago.
Vozes vindas de trás, da frente, do vizinho do lado, da miuda do telemovel com a musica da moda a tocar, risinhos, sussuros, pipocas, namorados, casados, solteiros, frustrados, impostores e nunca mais acabam.
Mas.. (há sempre um "mas" nestas histórias)
E.. e se um dia nada disto se parecer como é?
Pela primeira vez o cinema foi meu, como no "Cada um o Seu Cinema".
Não havia luz, não havia som, não havia ninguém por parte alguma. Foi na ultima fila que percebi como ele era, as formas que tinha, traços e cores. É tão melhor do que se pensa... Não, não. Não são apenas cadeiras vermelhas numeradas e uma televisãozinha grande lá ao fundo. É o cinema! Ele mesmo.
Então e... (o "então" também gosta muito de marcar presença nestas história. morre de ciumes do "mas")
E por detrás das cadeiras? A imagem vem de onde? Aquele foco projectado vem de onde?
Obvio que não viria embora sem tal resposta...
A porta dizia: "proibida a entrada a pessoal desconhecido". Ora, eu conheço-os. Damo-nos bem e tudo!
Abri a porta.
Cheira a... luz! Ou será que a luz não tem cheiro? Provavelmente não, mas é o unico nome que me lembro para descrever tal cheiro.
Já lá dentro, ouço uma voz vinda de fora: "Ah, estás aí. Sabia que não ias resistir. Brinca à vontade, pequena". Bem, pensei, apesar de apanhada, até foi simpático.
Carreguei, liguei e desliguei, procurei, vasculhei, mexi e remexi.
Finalmente fiz algo util, projectei a imagem na televisãozinha grande lá ao fundo. E acreditem, a imagem foi linda.
Apetecia-me ficar ali até não haver mais filmes no mundo para projectar... Até que: "oh, pst, podemos entrar para a sala?". Chegou a hora de ir..
O cinema, o cinema..